Mostrar mensagens com a etiqueta histórias dos povos da raia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta histórias dos povos da raia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de abril de 2022

 

Histórias dos povos da Raia
 Campo Maior 1944, a operação secreta que abalou o Alentejo


A polícia política de Salazar montou uma operação em 1944 para eliminar uma das muitas bolsas de refugiados espanhóis existentes na fronteira. A colaboração da Guardia Civil e a participação ativa do exército português levaram à captura de mais de duas dezenas de homens cujo destino ainda se desconhece.
A noite de 13 de novembro de 1944 foi muito fria. A estação meteorológica de Campo Maior registou uma mínima de 6,7ºC, que desceriam para os 4,5 graus na noite seguinte. O frio, porém, não foi o pior dos elementos que se abateram sobre um território do concelho entre a vila de Campo Maior e as aldeias de Ouguela e Degolados. Naquelas duas noites, uma invulgar atividade humana quebrou o silêncio dessas extensões planas e pregou valente susto aos poucos que, pela madrugada, atravessaram aquelas paragens para trabalhar no campo ou, quem sabe, trilhando rotas de contrabando.
Cerca de uma centena de militares, soldados da GNR e agentes da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado concentraram-se nas noites de 13 e 14 de Novembro de 1944 em vários pontos, numa operação conjunta entre forças portuguesas e espanholas. Primeiro na Referta da Ouguela, a uma dezena de quilómetros de Campo Maior e na noite seguinte nas Minas da Tinoca, no trajeto para Portalegre, com desvio pela aldeia de Degolados A sua missão: cercar, deter e identificar refugiados espanhóis, considerados "perigosos salteadores e comunistas", que se sabia viverem na zona conhecida pela polícia política como "República de Andorra", um vasto triângulo de terra sem controlo efetivo das autoridades cujos vértices eram Campo Maior, Ouguela e Degolados.
O Regimento de Cavalaria 1 de Elvas participou com um esquadrão misto, composto por 35 a 40 homens deslocados em três viaturas, A força da GNR, dispunha de 50 homens, 12 deles de cavalaria. A coordenação da operação estava a cargo do inspetor da PVDE António Roquete (a quem foi atribuído o assassínio em 1942 do médico António Ferreira Soares, perto de Espinho), secundado por quatro agentes cujos apelidos eram: Barros, Mesquita, Casaca Velez e Lemos.
Para impedir que os refugiados tentassem escapar ao cerco fugindo para Espanha, a Guardia Civil montou um dispositivo com 78 militares no outro lado da fronteira.
Devido ao frio intenso dessa noite foi distribuída aguardente entre os soldados, ás seis e meia da manhã começaram as movimentações. São efetuadas centenas de detenções, muitos são assassinados e outros desapareceram sem nunca nada se saber deles.
Tudo foi feito no maior secretismo e hoje só sabemos o que aconteceu graças à disciplina a um detalhado relatório sobre a preparação e desenvolvimento da operação que se encontra depositado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, presumivelmente da autoria do inspetor António Roquete.
Quem eram os homens e mulheres que viviam refugiados nas zonas de fronteira? Havia de tudo, refugiados políticos, fugidos à justiça, contrabandistas, gente que procurava melhorar a sua vida, gente com problemas diversos que preferia passar a raia. Eram pessoas de classe média ou baixa, habitualmente, eram homens entre os 18 e os 40 anos, relativamente envolvidos na política, em particular comunistas, socialistas, mas também alguns anarquistas ou apenas republicanos.
Uma notícia publicada pelo então clandestino jornal Avante, órgão central do PCP, lança um pouco de luz sobre estas dúvidas e interrogações. Na sua edição relativa à primeira quinzena de Maio de 1945, o jornal denuncia "os assassinos de Campo Maior" e acusa os "fascistas salazaristas" de terem assaltado "40 cabanas onde se albergaram 300 refugiados". Segundo a notícia, que não diz a data em que isso aconteceu, foram dadas ordens aos soldados para se apoderarem de dinheiro e bens. As roupas que encontraram são de seguida queimadas.
 

sexta-feira, 1 de abril de 2022


Oliva de la Frontera
Histórias dos povos da raia, “muito medo e pouco pão” era o ditado mais pronunciado nesta localidade durante o pós-guerra. Esta é mais uma das cidades raianas cuja história está ligada também com a história de portugal



Memorial de homenagem ao Tenente Seixas
Oliva de la Frontera presta  homenagem na forma de um memorial ao Tenente Seixas, comandante da Guarda Fiscal portuguesa em Barrancos na época da guerra civil Espanhola.
No verão de 1936, a aldeia de Barrancos, foi invadida por refugiados espanhóis que escapavam da guerra civil.
Á revelia de Salazar, o Tenente Seixas criou um campo de refugiadas e ao contrário de outras zonas do país, as autoridades locais não os expulsaram, mas com tentaram ajudá-los com a colaboração da população
O oficial seria mais tarde julgado por desobediência, mas conseguiu salvar centenas de  pessoas. tendo sido apelidado de "Schindler da Raia".




No memorial consta a seguinte inscrição de Gentil Valadares, filho do Tenente Seixas
O meu pai justificou-se perante o seu superior.
Alegou que também ele tinha filhos… que não gostaria nem poderia admitir que os maltratassem. Lhe parecia ser dever dele tendo à sua guarda filhos de Espanha, estima-los como era devido, pois só assim poderia honrar o oiro dos seus galões. E que soubessem os seus camaradas que lá porque se chamava Seixas, ele não tinha um seixo no lugar do coração.

António Augusto de Seixas Araújo nasceu em Montalegre, 29 de Setembro de 1889, e faleceu em Sines, 28 de Outubro de 1958,  foi Tenente da Guarda Fiscal portuguesa.

Toda a história dos refugiados de Barracos num post anterior

https://fronteirasealdeiasdaraia.blogspot.com/2022/03/historias-dos-refugiados-de-barrancos.html

Oliva de la Frontera
É uma cidade raiana com cerca de 5100 habitantes, fica situada no limite sul da província de Badajoz, a 22 km da fronteira da Amareleja no Alentejo.
É um município com relevância histórica, a sua área teve sempre importância estratégica entre as várias culturas que por ali passaram, Celtas, Romanos, Visigodos e Árabes, para além do elevado interesse histórico, patrimonial e arquitetónico, tem também uma história incrível de sobrevivência.
Devido à instabilidade da área, perto da fronteira com Portugal, ss tentativas de assentar a população não tiveram sucesso, Como consequência das guerras hispano-portuguesas do século XIV, nesta época o local encontrava-se em ruínas e quase despovoado. Em 1654 no decorrer da Guerra de Separação de Portugal do trono da Espanha, o povoado foi arrasado e saqueado pelos portugueses que destruíram a igreja, a Câmara Municipal e o castelo. Em 1705 sofreu novos ataques por ocasião da sucessão ao trono da Espanha. Essas guerras causaram uma diminuição significativa dos habitantes,
A partir de 1810 as dificuldades dos moradores foram muito grandes, visto que a Extremadura foi palco de várias operações militares na Guerra da Independência.

 Contrabando,e sobrevivência em Oliva de la Frontera
Muito medo e pouco pão era o ditado mais pronunciado durante o pós-guerra. Depois da Guerra Civil não houve apenas vencedores e vencidos, também houve medo, fome e escassez. Uma pobreza que, sobretudo em La Raya, tentou fazer face com a ajuda do vizinho Portugal e do contrabando, o ato ilícito que os oliveros homenageiam através de um monumento, o único no país que homenageia esta prática.
Um dos cronistas oficiais de Oliva de la Frontera, Antonio Valero, fala da época como "os anos de fome" e do contrabando como uma forma de sobreviver, para que suas famílias não morressem de fome. O perfil masculino era o mais comum no contrabando, mas também havia mulheres e até crianças.
Esta prática, que consiste em importar ou exportar mercadorias sem pagar os direitos aduaneiros, tornou-se, assim, uma autêntica atividade econômica e social para os residentes de La Raya. Depois de passarem a margem do rio Ardila, fronteira natural entre Espanha e Portugal, iam buscar a mercadoria nas quintas e casas de Barrancos e voltavam para Oliva, com muito cuidado para não serem apanhados. O cronista lembra a importância de Campo Oliva e seus 10.300 hectares que abraçam a cidade pelo oeste. Nele existiam três quartéis, que foram primeiro ocupados pela polícia e depois pela Guarda Civil e de onde era guardada a fronteira com Portugal. Assim, os contrabandistas fugiam de rotas que passavam perto desses pontos.











                  Click no link e veja o vídeo de Oliva de la Frontera

                                           Monumento aos contrabandistas
A cidade presta homenagem aos homens e mulheres que praticavam o contrabando prática ilícita, que permitiu aos moradores sobreviver no pós-guerra, através de uma escultura de dois homens em alpargatas e com mochilas nas costas, e um deles com uma pequena bolsa na mão. Era o que chamavam de "salva-vidas", com o qual ficavam se vissem um guarda e tivessem que correr depois de jogar a bolsa com maior peso. É popularmente conhecido como os “mochileiros”, o apelido pelo qual eram conhecidas os contrabandistas que transportavam produtos às costas. Eram cerca de 40 quilos embora houvesse muitos que chegavam aos cinquenta, e embora geralmente fosse café, pão ou sabão, também se traficava tabaco e pedras de isqueiro. Está localizado na Calle de San Pedro.















domingo, 27 de março de 2022

 

Histórias dos refugiados de Barrancos


No verão de 1936, a aldeia de Barrancos, foi invadida por refugiados espanhóis que escapavam da guerra civil. Ao contrário de outras zonas do país, as autoridades locais não os expulsaram, mas tentaram ajudá-los. Ainda hoje há memórias claras da presença dos refugiados espanhóis, especialmente republicanos, que atravessaram a fronteira para fugir à guerra civil que devastava o seu país.
A guerra civil de Espanha (1936-1939), que resultou de um golpe militar contra o governo democrático da II República, e terminou com milhares de mortos, transformou-se num conflito à escala internacional, e trespassou a fronteira portuguesa.
Em 1936 Salazar não deu nenhuma ordem específica para pôr do lado de lá da fronteira os fugidos da guerra. Só o fez em 1937, mas antes, ainda que informalmente, havia ordens para tratar as pessoas que chegavam como pessoas que não interessavam, porque eram republicanos e vistos como comunistas. No primeiro ano de guerra, Salazar não se imiscuiu muito. Só mais tarde, quando percebeu que Franco iria ganhar, é que começa a manifestar-se mais. De qualquer forma, logo desde o início, havia um alinhamento com Franco por causa do perigo do comunismo.
No concelho de Barrancos ocorreram dois dos maiores fluxos de refugiados. O Governo português apoiou os nacionalistas e costumava expulsar os refugiados ou entregá-los aos homens de Franco, mas em Barrancos nada disso aconteceu. O tenente Seixas, comandante local da Guarda Fiscal, permitiu a criação de um campo de refugiados que acolhidos nas herdades da Coitadinha (atualmente um alojamento Rural) e das Russianas, onde os fugitivos se abrigaram e receberam assistência. A população local também colaborou de todas as formas possíveis.
O oficial seria mais tarde julgado por desobediência, mas conseguiu salvar cerca de 300 pessoas. Em Oliva de la Frontera no outro lado da fronteira há um memorial de homenagem ao tenente Seixas e ao povo de Barrancos
A partir de determinada altura, os refugiados concentrados naquela zona já eram tantos - cerca de 800 - que o governo, até por pressões internacionais, viu-se obrigado a autorizar o campo. Ainda assim, a fronteira é fechada para tentar estancar o problema e é então que o tenente Seixas decide, à revelia, permitir que continuem a entrar e cria um segundo campo, quilómetros ao lado.
Uma das grandes preocupações de Salazar era o dinheiro que o Estado estava a gastar para alimentar todas aquelas pessoas. Os espanhóis não representavam um perigo. Para ele era, no essencial uma questão de tesouraria.
Até que Salazar percebe que tem de resolver o problema, e decide colocar todos os 1020 refugiados num navio, o Niassa, e fazê-los seguir para Tarragona, que ainda estava nas mãos dos republicanos.
 
                                   Herdade da Coitadinha
O monte da Herdade da Coitadinha, foi recuperado e é atualmente uma unidade de turismo rural com seis quartos, e um restaurante
Na grande varanda da Casa do Monte temos ótimas vistas para o Castelo de Noudar.

Contactos/ Reservas 285 950 000   www.parquenoudar.com